Seja bem vindo.

A voz do Basilisco não é tão feia quanto parece.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

PEDAGOGIA DEMAIS, GESTÃO DE MENOS



       No relatório da UNESCO de 2009 foi apontado que o Brasil vai muito bem no que se refere ao índice de matrículas e muito mal em quesitos como evasão escolar e analfabetismo. A repetência é a maior da América Latina e a disparidade de gêneros - quanto à evasão –é gritante (18% e 25% entre meninos e meninas, respectivamente). Quando perguntados a respeito do objetivo da Educação, em pesquisa da própria UNESCO, os professores responderam, em 1º lugar com 72% que o objetivo primordial seria “formar cidadãos conscientes”. “Desenvolver a criatividade e o espírito crítico” ficou em segundo e “proporcionar conhecimentos básicos” ficou em terceiro. “Transmitir conhecimentos atualizados e relevantes” ficou em quarto.
       As entidades filiadas à CNTE estiveram reunidas em Brasília, nesta quinta-feira (24/02/2011), para debater o Plano Nacional de Educação. As questões levantadas durante o Seminário ajudaram a Confederação a elaborar tópicos que precisam ser debatidos antes da aprovação do PNE no Congresso Nacional. Os conteúdos dos levantamentos orbitaram a questão “investimento”. O que seria feito com esse aumento de investimento em relação ao PIB não foi um assunto amplamente e objetivamente discutido. Bom... Se a preponderância do quesito investimento fosse tão absoluta assim, os resultados de rendimento do Distrito Federal em relação a Minas Gerais não estariam tão similares visto que no planalto central investe-se quase três vezes mais por aluno que na terra de Tancredo Neves. Os quesitos “Políticas Públicas” e “estratégias conjuntas” não fizeram parte significativa da pauta.
       Os pedagogos que me perdoem, mas os cursos de Pedagogia não têm conseguido formar professores de qualidade e esta incompetência reverbera de forma alarmante nas séries finais do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. Quem foi aluno de escola pública no DF cursando o primário em meados da década de 80 (há até um diretor do SINPRO que foi normalista e monitorava turmas no Gama) pode afirmar categoricamente que as Escolas Normais de Brasília davam de 10 a 0 em qualquer Curso de Pedagogia que funcione no Distrito Federal atualmente. Basta conversar com alguma colega pedagoga que antes do curso superior já fosse normalista, que você ficará sabendo que o que elas aprenderam de realmente aplicável foi desenvolvido durante o Curso Normal, principalmente durante as atividades práticas. Não venham com a velha conversa que a culpa é da Lei de Diretrizes e Bases porque o advento da LDB não é justificativa plausível para o baixo nível de qualidade dos Cursos de Pedagogia no Brasil.
       Se você conhece alguém que tenha cursado alguma Licenciatura na Universidade de Brasília faça-lhe as seguintes perguntas: Qual a faculdade ou Departamento da UnB que é mais bagunçado e inoperante? Qual ou quais as disciplinas do Curso de Licenciatura do Campus Darcy Ribeiro que requerem o menor esforço ou menos responsabilidade para se conseguir aprovação ao término do semestre? Se você obtiver como resposta “Faculdade de Educação”, “Instituto de Educação” ou outro termo parecido não será mera coincidência. Os Mestres e Doutores da Pedagogia da F.E. estão mais preocupados em comprovar teses particulares do que realmente mostrar resultados e consertar o que precisa ser consertado nos modelos de gestão. Quando tudo der errado, dirão que é “culpa do sistema”.
              O jargão educacional dos sábios da FE é interessante, pois toda tese pedagógica há de conter elementos “participativos”, “éticos”, “dialéticos”, “sociais”, “emocionais”, “democráticos” e outros tantos muito admiráveis e muitas vezes pouco práticos.  É até engraçado; todos os dias nos jornais lemos notícias que o Brasil desenvolve coisas de tal tipo: uma nova técnica para extrair petróleo em águas profundas, nova tecnologia para diminuir custo na extração de alumínio, nova técnica para clonar plantas através de pesquisa agropecuária, novo modo para cultivar algodão colorido etc. E uma nova técnica para fazer um aluno de quarta série saber ler e escrever adequadamente? Ah... essa técnica o Brasil (através dos seus cursos de Pedagogia) ainda não domina. Sendo assim, como ensinar Biologia, Filosofia, Sociologia e tantas outras disciplinas no Ensino Médio se o aluno não sabe o básico que é contar,ler e escrever? Qual a estratégia da Secretaria de Educação para melhorar significativamente o rendimento dos alunos nos 4 primeiros anos na escola e para tornar a carreira magistério mais atrativa e mais eficiente?
       Em dois meses de gestão, os responsáveis da Secretaria de Educação do Distrito Federal ainda não determinaram certas tarefas que já deveriam fazer parte da pauta do Governo mesmo antes de terem vencido as eleições. Os professores querem e merecem uma remuneração melhor e sem dúvida, um plano de isonomia paulatina e programada. Fora a carta de intenções do Agnelo, é improvável que apresentem uma planilha ou um projeto que demonstre a projeção de ajuste salarial antes do dia 1º de maio. Entretanto, esta não é a única questão importante para a melhoria na qualidade e nos índices educacionais do DF (que ao contrário do que alguns pensam, não são a mesma coisa). Pelo que tem sido noticiado nos próprios veículos de informação do Estado, não há perspectiva de intervenção no sentido de treinamento ou de preparo dos professores que começam a fazer parte da instrução pública. Os representantes da pasta educacional, assim como os responsáveis pelos cursos de Pedagogia, falam sempre em “dialogar”, “democratizar” e outros verbos caramelizados para tentar compartilhar com os professores a sua falta de posicionamento e o seu desconhecimento de procedimentos a serem tomados para melhorar os resultados.
       Na verdade, aquele período de transição do qual vários colegas participaram serviu apenas para que se discutisse distribuição de cargos. As questões de urgência educacional não foram debatidas, o que culminou em uma série de trapalhadas e adversidades que poderiam ser evitadas caso houvesse na cúpula da SEE “gente que faz” e não que apenas “gente que debate”. Qual o plano da SEE com relação ao Currículo?  Qual o plano da SEE com relação à coordenação das escolas com as vilas olímpicas? Qual o plano de integração da SEE com os conselhos tutelares para viabilizar uma melhor presença das famílias nas instituições de ensino? Qual o plano da SEE para minorar o absenteísmo nas escolas? Quais as estratégias para melhorar as coordenações pedagógicas? Qual o projeto ou o plano de critérios para definir a ocupação dos núcleos das Regionais e o tempo de permanência de professores fora de suas atribuições originais? Será que a Secretária tem conhecimento de coisas práticas como a diferença de modulação entre uma escola com 15 turmas e uma com 18? Será que é preciso contratar um matemático de renome para mostrar às esferas mandantes que é imprescindível que novas escolas sejam construídas, pois em termos de custos físicos e empregatícios a ação de agrupar 90 turmas em 6 escolas sai mais barato que agrupá-las em 5?
      A questão fundamental não diz respeito ao que querem os professores, mas sim ao que os mesmos merecem. Os professores merecem salários isonômicos com o teto salarial das carreiras de curso superior para que a carreira se torne atrativa e que diminua a migração dos profissionais mais talentosos que tendem a sair devido ao potencial desperdiçado por conta da remuneração pífia. Os professores merecem regras bem definidas de remoção e remanejamento que não mudem a cada ano e que possibilitem que organizem melhor a sua rotina. Em vez de muito discurso e muitos diários, registros mais simplificados e mais viáveis, dada a tecnologia que nos é disponibilizada na época em que nos encontramos. Os professores merecem uma burocracia especializada na sede da SEE e nas regionais e não apadrinhamentos políticos e politicagens que inflam o sistema público de ensino. Os professores merecem treinamento especializado antes de assumirem a sala de aula e redução de carga horária ou mudança nas atribuições à medida que se aproximam do topo da carreira. Quem melhor entende o sistema é quem nele está há mais tempo.
       Faltou quem dissesse tais palavras ao Agnelo e aos demais gestores nas oportunidades em que muitos deles subiram  ao carro de som do SINPRO para fazerem uso da palavra para a multidão faminta por mudanças.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Até que enfim, Cristovam Buarque!

Amigos e amigas.
Não é que milagres acontecem? Fui dar uma olhada no Blog do Washington Dourado e olhem o que eu vejo:  o ex-governador Cristovam Buarque fazendo um discurso sóbrio, objetivo  e "não muito utópico".
Depois de propor a inclusão da felicidade na Constituição Federal e de querer obrigar os políticos a matricularem seus filhos em escolas públicas, o nosso Senador engraçado (em quem eu sempre votei, afinal de contas, além dele, no DF nunca houve opção que valesse a pena) apresenta um momento de lucidez. Em tempos de trapalhadas da SEE, o nosso Zacarias "candangopernambucano" deixa o espírito comediante de lado e nos presenteia com um belo artigo.
Parabéns,Cristovam.
Vale  a pena conferir. Segue integralmente:

"

Ouvir o passado – Artigo J. Correio Braziliense – 29/01/2011

Ouvir o passado 

Quando assumi o governo do Distrito Federal, desejei fazer três perguntas ao governador anterior. Quais erros não repetiria, quais projetos gostaria de continuar e que novos projetos iniciaria. A distância política entre nós me impediu. Com a eleição do governador Agnelo Queiroz, gostaria de ter tido a oportunidade de apresentar minhas respostas a essas três perguntas.
Defenderia a volta da transparência e da ética, não apenas entre os quadros superiores, como também impedindo a generalização de pequenas corrupções na base, o que depende do comportamento e da imagem das autoridades de cada setor. Na ética, a imagem de que nada mudou leva a nada mudar, mesmo quando se deseja mudar. Apesar da perda de votos, continuaria recomendando construir escolas, redes de água e esgoto e espaços culturais no lugar de fazer viadutos e autopistas. Seria correto retomar o sentimento de uma Brasília Legal. A Bolsa Família deveria voltar a ser Bolsa Escola, um programa educacional administrado pela Secretaria de Educação e no valor de um salário mínimo por família. Como complemento à Bolsa Escola, a Poupança Escola deveria voltar; como também as agroindústrias familiares para dinamizar o setor rural dos pequenos produtores. A Paz no Trânsito precisa recuperar sua eficiência e compromisso com a vida. O Saúde em Casa deveria voltar a ser implantado nos moldes e na dimensão daquele tempo, quando, graças ao trabalho da secretária Maria José Maninha, a saúde pública funcionava muito bem. Sugeriria voltar a Cesta Pré-Escola, as temporadas populares, o Projeto Saber que, graças ao esforço do secretário Pedro Celso, assegurou ofício a centenas de milhares de jovens; e o Projeto Mala do Livro, que levou leitura para dentro das casas. Continuaria ainda com mais rigor e cuidado as faixas de pedestres. Retomaria o projeto Orla que, em 1998, já demonstrava tão bons resultados e que, apesar da interrupção, foi adiante graças ao setor privado.
Em relação a avanços e melhorias em projetos que fiz, além de ampliar aos poucos o horário em todas as escolas do DF, como fiz no meu governo, sugeriria manter o horário integral nos moldes limitados, mas positivos, iniciado no governo Arruda, e implantar a verdadeira educação integral dentro de cada escola. Recomendaria que essa revolução fosse feita por cidade, na qual todas as escolas teriam seis horas mínimas de atividades escolares por dia, em novos prédios bem dotados dos mais modernos equipamentos. Na democratização da escolha de diretores escolares, que implantei, avançaria criando uma escola de gestores e condicionando a eleição somente para os professores que tivessem o diploma. Até lá, manteria o sistema criado pelo governo Arruda de eleição depois de prova de qualificação para os candidatos, para saber se eles têm vocação, motivação e preparo para o cargo. O bom programa de alfabetização, inclusive com o Bolsa Alfa, que meu governo fez, seria substituído por um programa mais radical de erradicação do analfabetismo, definindo o prazo para colocar em frente ao aeroporto uma placa dizendo: “Você está entrando em um território livre do analfabetismo”. Também avançaria no uso da Parceria Público Privada, levando o mesmo conceito para creche, educação e saúde.
Quanto aos erros, não hesitaria em dizer que ouviria mais os parlamentares no que diz respeito ao cumprimento de promessas aos eleitores. Daria mais força à sociedade civil, com um orçamento participativo mais amplo, sem limitar-se apenas aos investimentos. Implantaria eleições para administradores de cidades, na linha da proposta de reforma da Constituição apresentada pelo senador Rodrigo Rollemberg. Substituiria o tempo que dediquei como professor em aulas na UnB, como dei durante todo o mandato, para ir com mais freqüência ouvir o povo nas rodoviárias, feiras, shopping centers. Faria reuniões quinzenais com os servidores e não só com os sindicatos.
Elegemos um governador para mudar e ele não deve seguir a opinião de seus antecessores, mas ouvir quem tem experiência é um gesto de quem já tem experiência. O governador chega para construir o futuro; seguir opinião de mais experientes pode levar ao conservadorismo, mas ouvir o ontem pode ser um bom caminho para o caminhar ao amanhã.
Cristovam Buarque é Professor da UnB e Senador pelo PDT – DF
http://buarque.org.br/?p=8970

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

O Deserto dos Tártaros e nós



por João Tiago Dias Junior

O livro “Il Deserto dei Tartari” foi escrito por Dino Buzzati em 1940. Buzzati (San Pellegrino di Belluno, 16 de outubro, 1906 — Milão, 28 de janeiro, 1972) foi um escritor italiano que dentre outras coisas serviu ao exército da Itália antes da Segunda Guerra Mundial e trabalhou durante muito tempo no Corriere della Sera,jornal diário que é impresso em Milão.

A obra conta a história de Geovanni Drogo um sujeito que é nomeado oficial aos 20 anos de idade e acaba sendo lotado no Forte Bastiani que é localizado em uma região fronteiriça e de pouca importância estratégica à margem do deserto denominado “Deserto dos Tártaros”.  A edição que eu tenho é de 2003 da Editora Nova Fronteira. Li por indicação do meu caro amigo Luís Edvar Cavalcante Filho, que por sinal, só recomenda boas leituras.

Eis o Resumo:



Drogo chega ao forte aos 20 anos com a patente de tenente e vai conhecendo os militares do forte e as visões particulares de cada um deles a respeito do serviço e do cotidiano, esperando por uma batalha que nunca acontece. A maioria dos militares afirma que o serviço no forte é apenas provisório, embora muitos deles estejam com mais de 15 anos de serviço no mesmo local e outros acabem morrendo com o tempo dentro dos limites dos muros. Drogo é alertado “ o senhor, tenente, que é novo, que mal acabou de chegar,tenha cuidado enquanto é tempo...vá embora quando puder para não pegar a mania deles.” [1]É dito também que certo coronel pôs na cabeça que “o forte é importantíssimo, muito mais importante que todos os demais, e que na cidade não entendem nada.” Outros ali estavam esperando que alguma coisa de diferente ainda deveria acontecer, alguma coisa de realmente digno. [2]

Drogo, que ficaria apenas 4 meses no Forte Bastiani , vai perdendo a vontade de fazer alguma coisa para deixar a fortificação.O jovem oficial decide permanecer por acreditar fazer algo nobre e orgulhar-se disso , descobrindo-se melhor do que supunha. “Só muitos meses mais tarde, olhando para trás, reconhecerá as míseras coisas que o ligam ao forte.”[3]

Rapidamente passam-se 2 anos e a existência de Drogo havia ficado estática. Atividades meramente rotineiras [4] algumas pessoas morrem, alguns acidentes ocorrem e os acontecimentos vão sendo diluídos pelo tempo. Um dia, no começo da manhã, na planície setentrional “algo se aproximava vindo do norte como nunca acontecera antes, pelo menos ninguém tinha lembrança disso. [5]” Aparentemente seriam fileiras de soldados. Seriam os tártaros tão esperados? O forte inteiro se preparou para a guerra. Soldados comuns, corneteiros, oficiais...entretanto , o Estado maior comunicaria que seriam na verdade “destacamentos do Estado do norte, encarregados de demarcar as linhas de fronteira como havia sido feito há muitos anos.[6]

Decorridos 4 anos,em conversa com Drogo, um major o alerta para que ele volte à cidade enquanto é tempo porque nem todos nascem para heróis e porque já avistara que outros como ele foram adquirindo os hábitos do lugar “ e não foram mais capazes de se mexer , ficando aprisionados dentro do forte, velhos aos trinta anos, realmente.”... “Todos teimamos em esperar. Mas é um absurdo, basta refletir um pouco.”...”Dessas bandas nunca mais poderá vir uma guerra, Agora então, depois da última experiência,quem você quer que acredite nisso seriamente?”.[7]

Um dia, Geovanni Drogo resolve sair do forte e volta às origens. Estranhou o mundo fora da fortificação. Não reconheceu direito os parentes. Não teve a mesma relação com os amigos que lhe pareceram um tanto indiferentes e ocupados. Estranhou a própria casa “como se o afeto de outrora tivesse sido embaciado, como se entre ambos o tempo e a distância tivessem lentamente estendido um véu de separação.”[8] Drogo até gostava daquele mundo fora do Forte Bastiani “mas todas as coisas que alimentavam sua vida de antigamente tinham se tornado remotas;um mundo alheio, em que seu lugar fora facilmente ocupado. E agora já o examinava de fora, ainda que com saudade, reentrar nele o deixaria constrangido, caras novas, hábitos diferentes, novas brincadeiras, novos modos de falar, aos quais não estava acostumado. Aquela não era mais a sua vida.”[9]

Drogo até tentou um posto melhor fora do forte, mas esbarrou em questões políticas e burocráticas além da sonegação de informações pelos colegas de trabalho que desejariam pegar postos melhores em detrimento dele. Acabou tendo que regressar sendo lotado no mesmo posto fronteiriço de antes, embora tenha sido um pouco indiferente para ele.Com o passar do tempo, o forte perdera importância e só era mantido apenas para não deixar a fronteira desguarnecida. Não poderia aparecer nada de importante por aquelas paragens, no máximo caravanas de nômades. O jovem pensava que os companheiros que com o tempo deixaram o forte “tinham sido mais espertos” e não descartava a hipótese de que “talvez eles fossem realmente melhores” [10] Quando retornou, deparou-se com algumas mudanças que animou a alguns por conta da eminente oportunidade de transferência através de contatos com pessoas influentes. Ficava claro que “as ilusões guerreiras de outrora não passavam de pretextos para darem sentido à vida.”. Havia alguns também, militares mais velhos que assistiam indiferentes a notícia de redução de efetivo e que não se interessavam mais pela mudança de ares.[11] Em conversa com um oficial mais graduado, Drogo ouve que as conversas sobre os tártaros seriam esperanças plantadas por alguém no passado e que não teriam tanta credibilidade para quem estava no serviço desde longa data.[12]

Depois da redução de efetivo apareceu novamente no horizonte, uns 2 anos depois da última visão, imagens de movimentação para as quais o efetivo residual não deu muita importância.À noite, com o uso de luneta , uma luz poderia ser notada no horizonte.Poucos dias depois a luz desaparecera e não se via mais movimentação alguma. As movimentações retornariam depois de 4 dias de ausência.Um oficial conjecturava com Drogo se não se trataria da construção de uma estrada com finalidades militares de um eventual inimigo. O inverno cairia abruptamente em neve e os companheiros faziam seus serviços de sempre sem entusiasmo. As luzes longíncuas se apagaram sugerindo uma “eventual interrupção de trabalhos[13]. O comando do forte proibiu as conversas a respeito de atividades fronteiriças suspeitas e proibiu o uso de equipamentos óticos que permitissem “erros e falsas interpretações” do que acontece nos pontos remotos. Tais aparelhos ou instrumentos deveriam ser confiscados e guardados sob custódia do comando. [14] O oficial (Simeoni) amigo de Giovanni entregou a luneta aos superiores e não quis mais tocar no assunto das supostas operações no deserto, talvez querendo evitar represálias. Pararam de conversar sobre o assunto e Drogo se deu conta de que "Os homens, ainda que possam se querer bem, permanecem sempre distantes. Se alguém sofre, a dor é totalmente sua, ninguém mais pode tomar para si uma mínima parte nem vão sofrer por isso, ainda que o amor seja grande, e é isso que causa a solidão da vida" [15]. Tempos depois , quando chegou uma estação mais propícia, a luz reapareceu e a cada noite parecia mais próxima. Alguns até falavam de guerras em termos vagos.Então, eis que se passaram 15anos , os estrangeiros estariam bem próximos e o efetivo ainda mais reduzido. Num dia de setembro, depois de 30 de licença dos quais tirou apenas 20, Drogo retorna ao Forte Bastiani pois “a cidade se lhe tornou completamente estranha, os velhos amigos tomaram seu caminho, ocupam posições importantes e o cumprimentam apressadamente como a um oficial qualquer. Até sua casa, de que Drogo no entanto continua a gostar, enche-lhe a alma, quando ele volta para lá, de um sofrimento difícil de explicar. A casa está quase sempre vazia, o quarto de sua mãe está vazio para sempre, os irmãos estão constantemente ausentes, um se casou e mora numa cidade diferente, o outro continua viajando, na sala não há mais sinais de vida familiar, as vozes ecoam com exagero e abrir as janelas para o sol não é suficiente.” [16] Giovanni carrega a ilusão de que o melhor ainda está para começar.Entretanto, Drogo não pula mais os degraus de 2 em 2 nem cavalga mais na esplanada atrás do forte (não porque não dá conta mas sim porque não tem mais vontade).Ele prefere ficar cochilando ao sol depois do almoço.[17] Exatamente como em seu primeiro dia, Drogo, agora capitão, subia ao forte mantendo diálogo com um tenente novato que iria se apresentar. Estavam separados pelas peculiaridades geográficas do lugar em caminhos diversos que se fundiriam mais à frente, à medida que se aproximassem do local de destino. Assim como ocorrera com ele num passado distante quando encontrou Ortiz pela primeira vez quando se dirigia para apresentar-se ao forte fronteiriço[18].

Giovanni Drogo até pensava em pedir baixa quando via alguns oficiais antigos em aposentadoria saindo da fortificação, mas tinha uma “obscura certeza de que o bom da vida ainda estava para começar”.
Passam-se os dias e a certa altura, Drogo já tem idade para ser avô: 54 anos e patente de major[20]. A estrada do deserto está abandonada. Nunca mais ninguém voltou. Certa feita, mesmo doente , Giovanni Drogo, agora major, recusava conselhos para que tirasse licença para se tratar. Permanecia no forte a despeito do estado de saúde fazendo pesar sobre os outros a sua “virtuosa perfeição”.Passam-se os dias e o velho alfaiate entra ofegante no quarto de Drogo avisando que finalmente o inimigo apontava no norte, e desta feita, em vez de fileiras , regimentos com canhões e tudo o mais [21] Giovanni Drogo, mesmo tonto e cambaleante, sobe e avista com o auxilio da luneta de Simeoni o inimigo que se avizinha. É avisado que estão mandando da cidade 2 regimentos como reforço.Sem sentidos, esmorece sobre o parapeito da fortificação, amparado pelo colega. Drogo fica de cama e a artilharia inimiga se coloca a postos próximo ao forte. Uma carruagem previamente requisitada por Simeoni havia de ir buscá-lo para que ele se restabelecesse na cidade. “Ele, que jogara fora as melhores coisas da vida para esperar os inimigos, que há mais de trinta anos se alimentara daquela única fé, era enxotado justo agora que finalmente a guerra chegava?”[22] No quarto que Drogo deixaria vazio, caberiam 3 oficiais que chegariam como reforço. Giovanni ficou irritado por julgar que Simeoni queria despachá-lo por conta do quarto e não por cuidado ou amizade. O oficial Simeoni deixa claro que é melhor para todos que ele , naquele estado, partisse.

Os inimigos estão lá fora e Drogo com mais de 50 anos e em péssimo estado físico se veste para ir embora.Os bastiões da fortificação estão com munição preparada. Drogo desce as escadas para subir numa carruagem pomposa, Simeoni manda recado para que ele espere alguns minutos, mas ele resolve partir de imediato. Esperara por mais de 3 décadas, e agora que os estrangeiros chegavam, era mandado embora. “Tudo terminava miseravelmente e não restava nada a dizer”[23] .Partiu acompanhado por 2 soldados que atuavam como cocheiros e acompanhantes. Mais tarde,parou numa estalagem ao caminho com o intuito de passa a noite, viu uma criança dormindo sem preocupações ou remorsos e se imaginou no lugar dela. Tarde da noite é deixado pelos acompanhantes que vão tomar um trago e fica sozinho no quarto que está repleto de escuridão. Em breve deverá surgir a lua e Drogo se prepara para a morte. Pela janela, olha para sua última porção de estrelas. Em seguida, no escuro, embora ninguém o veja, sorri.[246]



Buzzati, Dino

O Deserto dos Tártaros

Editora Nova Fronteira.

Rio de Janeiro. 3ª Edição. 2003.



[1]Cap. VII , pg. 55 ;[2] Cap. VII, pg. 58 ;[3] Cap. X, pg 73 ;

[4] Cap. XI, pg 82 ;[5] Cap. XIV, pg. 110; [6] Cap. XIV, pg. 122 ;

[7 ] Cap. XVI ,pg.146/147; [8] Cap. XVIII, pg. 159 ;[9] Cap. XIX, pg. 167.;

[10] Cap. XXI, pg. 175 ; [11] Cap. XXI, pg. 177;[12] Cap. XXI , Pag.181 ;

[13] Cap.XXII, pag.195; [14] Cap. XXIII, pag.197 [15] Cap.XXIV, pag. 203;

[16] Cap. XXIV, pag.208; [17] Cap. XXIV, pag. 209;[18] Cap. XXV , pag. 211;

[19] Cap. XXVI, pag. 217;[20] Cap. XXVII, pag. 219; [21] Cap. XXVII, pag. 224;

[22] Cap. XXVIII, pag 231; [23] Cap. XXIX ,pag. 237; [24] Cap. XXX, pag.246;

domingo, 19 de setembro de 2010

Nietzsche, Schopenhauer e as tendências suicidas.*

       

     O  suicídio é uma das principais causas de morte da modernidade, principalmente entre adolescentes e adultos com menos de 35 anos de idade.[1] Fatores tais como  depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia, alcoolismo e abuso de drogas, dificuldades financeiras e/ou emocionais  desempenham um fator significativo como causas para o suicídio.Há casos também de suicídios por conta de causas políticas ou por motivos religiosos.
      Quem nunca desejou "Morrer , dormir-mais nada-e com um sono supor que acabamos com a angústia e com os mil embates naturais que herda o homem com todas as suas limitações e fraquezas."? [2] Quem nunca perguntou a si se não seria melhor não ter nascido?
       Falando com uma moça sobre os efeitos do Clonazepan e da Fluoxetina que ambos havíamos tomado, ela me disse que tinha um certo interesse pela obra de Nietzsche mas que não o lera por conta de tendências suicidas latentes. Num aforismo específico do seu "Para além do bem e do mal." o autor fala que "A idéia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más".[3] Em outros escritos , afirma através de outro aforismo que "O suicídio é admitir a morte no tempo certo e com liberdade." 
       Em sua primeira obra publicada , a qual foi um de seus últimos escritos que li e uma das minhas prediletas, Nietzsche escreve: "Também a arte dionisíaca quer nos convencer do eterno prazer da existência: só que não devemos procurar esse prazer nas aparências, mas por trás delas.Cumpre-nos reconhecer que tudo quanto nasceprecisa estar pronto para um doloroso ocaso; somos forçados a adentrar nosso olhar nos horrores da existência individual - e não devemos toda via estarrecer-nos: um consolo metafísico nos arranca momentaneamente da engrenagem das figuras mutantes. (...) Apesar do medo e da compaixão,somos os ditosos viventes,não como indivíduos, porémcomo o uno vivente, com cujo gozo procriador estamos fundidos.[4]

        Nietzsche era entusiasta da obra de Arthur Shopenhauer que abordou,dentre outros assuntos,temas relacionados à morte e ao suicídio no seu "O mundo como vontade e representação." O pessimista Scopenhauer chegou a afirmar que "O suicídio é a positivação máxima da vontade humana." Com isso , ele tornaria claro que embora o homem não tenha o poder de interferência sobre o próprio nascimento, o mesmo não se daria com a sua morte. Com uma marreta invisível , esses dois alemães derrubam as colunas da fé num trabalho de Sísifo. Quanto mais chegamos perto das colunas, percebemos o quanto elas se encontram deterioradas ou até mesmo inexistentes. O problema é que se chegamos muito perto, corremos o risco de sermos soterrados e não conseguirmos nos desvencilhar dos escombros. O risco do soterramento só é minorado quando colocamos outra coisa no lugar da fé que possa evitar que o teto que sustenta as dores do mundo se rompa sobre nossas cabeças.
       O existencialismo me foi apresentado por volta de 1999 em um ônibus da Viplan que fazia o percurso do Plano Piloto para o Gama quando eu voltava da Universidade de Brasília. Um evangélico , por incrível que pareça, me indicou o "Assim falou Zaratustra" que eu pegaria emprestado da BCE da UnB e devolveria com 90 dias de atraso. O caminho da Universidade para o Gama está para mim como o caminho de Damasco estava para Saulo de Tarso. Se Saulo se tornou Paulo, eu me tornei um eu rumo a um Eu com "E" maiúsculo.Ao contrário do que muitos pensam, a obra dos alemães  supracitados , em vez de nos dar razões para morrer, na verdade nos dá razões para perseguir e agarrar a vida como uma das coisas mais valiosas do mundo.      
       A lição que eu tiro da obra dos grandes alemães  é a mesma lição que eu absorvo do Capítulo 9 do Eclesiastes , tão negligenciado pelos religiosos: "  Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma. Vi ainda debaixo do sol que não é dos ligeiros o prêmio, nem dos valentes, a vitória, nem tampouco dos sábios, o pão, nem ainda dos prudentes, a riqueza, nem dos inteligentes, o favor; porém tudo depende do tempo e do acaso"[5]
       Num dos trechos mais emblemáticos sobre a existência , Nietzsche diz:  " O erro sobre a vida necessário à vida. — Toda crença no valor e dignidade da vida repousa sobre pensamento impuro; só é possível porque a simpatia pela vida e sofrimento universal da humanidade é muito francamente desenvolvida no indivíduo. Mesmo os homens mais raros, que de modo geral pensam além de si mesmos, não captam no olho esse vida universal, mas partes delimitadas dela. Quem sabe dirigir seu olho principalmente a exceções, quero dizer, aos talentos superiores e às almas ricas, quem toma seu surgimento por alvo de todo o desenvolvimento do mundo e se alegra com suas obras, pode então acreditar no valor da vida, porque, com efeito, deixa de ver os outros homens: portanto, pensa impuramente. E, do mesmo modo, quem capta no olho todos os homens, mas só leva em conta neles um gênero de impulsos, os menos egoístas, e os desculpa no tocante aos outros impulsos: pode então, mais uma vez, esperar algo da humanidade em seu todo e nessa medida acreditar no valor da vida: portanto, também nesse caso, por impureza de pensamento. Mas quem procede de um modo ou do outro é sempre, ao proceder assim, uma exceção entre os homens. Ora, precisamente a maioria dos homens suporta a vida sem resmungar demais, e com isso acreditam no valor da existência, mas precisamente porque cada qual só quer e afirma a si mesmo, e não sai de si como aquelas exceções: todo extrapessoal, para eles, ou não é perceptível ou o é, no máximo como uma fraca sombra. Portanto, somente nisto repousa o valor da vida para o homem comum, cotidiano: ele se dá mais importância do que ao mundo. A grande falta de fantasia de que sofre faz com que não possa sentir-se dentro de outros seres e, por isso, ele toma parte o menos possível em seu destino e sofrimento. Quem, ao contrário, pudesse efetivamente tomar parte neles haveria de desesperar do valor da vida; se conseguisse captar em si a consciência total da humanidade e senti-la, ele sucumbiria, amaldiçoando a existência — pois a humanidade no todo não tem nenhum alvo e, conseqüentemente, o homem, ao considerar o decurso inteiro, não pode encontrar nele seu consolo e trégua, mas seu desespero. Se vê em tudo o que faz a falta de finalidade última do homem, seu próprio agir adquire a seus olhos o caráter do esbanjamento. Mas sentir-se, como humanidade (e não somente como indivíduo), tão esbanjado como vemos a florescência isolada ser esbanjada pela natureza, é um sentimento acima de todos os sentimentos. — Mas quem é capaz dele? Certamente apenas um poeta: e poetas sabem sempre consolar-se. " [6]
          Nietzsche afirma através de sua obra que não devemos ter vergonha do passado , de termos sido religiosos, ignorantes, superticiosos ou crédulos porque foi através dessas práticas , ignorâncias, supertições e  crenças que conseguimos chegar ao que somos hoje e que devemos fazer uso de tudo isso para chegarmos mais longe´.Shopenhauer, por sua vez, fala que superestimamos as dores em detrimento dos prazeres. Fala também que nunca notamos a sanidade do corpo mas que sempre lembramos onde o sapato aperta.
        Como uma nave que perde os estágios que serviam como reservatório, deixamos para trás  um peso desnecessário que nos foi útil quando estávamos próximos do chão. O alemão bigodudo também fala que muita gente que morreu precocemente não teve a oportunidade de viver os infortúnios que a gente tanto reclama. Devemos , portanto, nos regozijar por termos a oportunidade de termos experiências que homens de várias épocas e várias gerações não puderam ter, visto que até mesmo as adversidades modernas sofrem a incorporação de novos atributos e peculiaridades. Deste modo, não vejo na obra dos grandes alemães uma "apologia" ou indução ao suicídio. Encaro tudo isso mais como um "preconceito religioso". A descrença no transcedente deveria, pelo contrário, mostrar ao homem que a vida é única e que momentos felizes e infelizes são transitórios. Se essas conclusões não são suficientes para mudar o estado de consciência, quem sabe um medicamentosinho não resolva.
       Bebamos e comamos (no Outback , preferencialmente) pois amanhã morreremos.


*em homenagem à farmacêutica G.R.
J.T.




      





[1]Understanding Suicidal Behaviour. Leicester: BPS Books, 29 Jan 2000. p. 33–37.
[2]Shakespeare, William. Hamlet. Ato 3 .Cena I
[3] Nietzsche.Para Além do Bem e do Mal. Aforismo 157. Companhia das Letras
[4] O Nascimento da Tragédia. Capítulo 17. Companhia das Letras.
[6]Nietzsche.Humano, demasiado humano, 1878, primeiro volume, capítulo um,§ 33.Companhia das Letras
[5] Eclesiastes 9:4 a 11

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Estudando no Setor Sul do Gama

       Eu havia estudado entre 1984 e 1988 na Escola Classe 18 que funcionava num prédio de compensados cedido e localizado na área do Quartel de Polícia Militar no Setor  Sul do Gama. A estrutura da escola do meu primário era muito rústica, entretanto, o ensino era incomparavelmente superior ao que minhas filhas recebem nos dias de hoje, mesmo com amplo acesso a tecnologias.
        Na primeira série (1985), fui alfabetizado pelo politicamente correto Professor Jair. Aprendi a ler à base de muito cascudo , beliscão e puxão de orelha. De vez em quando , o Professor parava de escrever e de falar ( e de dar cascudo também) para poder saborear um cigarrinho. Se algum aluno fosse beber água no filtro ao fundo da sala sem pedir autorização...seria devolvido à sua cadeira através de puxões de cabelo e chacoalhadas por toda a sala.Engraçado...aprendi a ler muito rápido.
       A segunda série foi muito tranquila com a educadíssima Professora Carminha. Na 3ª série estudei com a professora Gilca. A formação era tão boa naquela época que uma vez ela mandou chamar a minha mãe para falar que teve que lavar a mão com álcool porque eu tinha desenhado o capeta em uma folha de papel. Fizeram uma reunião onde eu estava com todos os professores da escola ao meu redor, gente que eu nem conhecia, para saber o motivo pelo qual eu tinha desenhado um boneco de chifres. Foi uma  série muito traumática. A quarta série foi fantástica. Grande parte de minha formação devo à Professora Maria do Rosário, afinal de contas, saí do primário sabendo ler e realizar as operações básicas com tranquilidade; coisa rara hoje em dia para um aluno que sai do primário em escola pública.
       Em 1989 , eu seria despejado na 5ª série do matadouro do inferninho, onde aprendi , dentre outras coisas, a matar aula com o Lila, o Dida, Claudionei e meu irmão e a disseminar a história da mulher de algodão.Em 1989 e 1990 eu cursaria a 5ª e a 6ª série numa das piores escolas do Distrito Federal: o antigo Centro de Ensino 09 do Gama, onde além de levar uma "carreira" por dia, receberia chutes socos e teria a nuca queimada por um isqueiro encandescente. A escola existe ainda hoje, localizada entre as quadras 13, 17 e 15 do Setor Sul , no antigamente conhecido "Inferninho". O marginal que me queimou acabou morrendo pouco tempo depois com uma pancada de caibro na nuca enquanto perambulava pela quadra 11.
       A melhor coisa da escola era inventar peças de teatro para apresentar em sala a respeito dos diversos temas que os professores passavam. Uma vez,uma professora pediu para que a gente apresentasse alguma coisa que tivesse algo a ver com arte. A gente cantou uma espécie de funk onde havia um trecho onde um jovem negro apanhava da polícia depois de um arrastão. O trecho dizia: "E o crioulo o que diz?", e na música, uma voz  respondia como quem está levando uma surra: " O que foi que eu fiz?". A gente cantava os outros trechos da letra e esse trecho não muito polido era respondido por um outro aluno negro que se chamava Nelson. A professora achava uma gracinha.
       Em outra ocasião, a professora de Português pediu um trabalho que tratasse de Ecologia.  Não pensamos 2 vezes: eu, meu irmão e mais 2 ou 3 colegas atravessamos a DF 290 e descemos para o cerrado munidos de facões e machados. Fizemos uma devastação extraordinária para meninos de 12 anos. Pequizeiros e Mamacadelas sucumbiram ao nosso desejo de aprendizado,e dessa forma, à tarde durante a aula , transformamos  o recinto sagrado de nossa classe em uma imensa floresta.
       A professora nos deu uma boa nota, afinal de contas, havíamos acabado de ensinar aos nossos coleguinhas a importância de se preservar o meio ambiente.